O nosso tempo é algo curioso e ao mesmo tempo perigoso e difícil de controlar.
Quando crianças, brincávamos com nossos amigos sem preocupações sérias, só pensando que se não fizéssemos tarefa, a professora iria escrever um bilhete pra mãe assinar na agenda (mas é claro que na época isso era o fim do mundo, tanto é que eu falsificava as assinaturas da minha mãe pra não levar bronca, enfim), a gente ia pra casa das amiguinhas e ficava lá até de noite, brincando no playground com gente que nunca havíamos visto na vida, mas a gente nem ligava. Comia de tudo, tudo MESMO, pois pelo menos eu não engordava nem que me entupisse de gordura saturada. Metabolismo de criança é uma maravilha. Tudo isso sempre pensando em crescer logo pra poder fazer mais coisas legais.
Quando pré-adolescentes, as meninas (pelo menos eu), morriam de medo e vergonha de tudo, tinham vergonha por não ter peito nem bunda, enquanto aquela amiga precoce era toda formadinha, parecendo uma deusa grega e centro das atenções. Os cabelos começaram a dar trabalho, sofremos várias transformações hormonais que nos forçaram a usar desodorante, sutiã (tamanho PP pra mim, ó tristeza), carregávamos um absorvente na bolsa porque a mãe enchia o saco e por aí vai. Pros meninos era um terror também, pois a voz ficava estranha, alguns não tinham pêlos no corpo e morriam vergonha por parecerem meninas, a cara se enchia de espinhas (isso também vale pras meninas), e eles começavam a se interessar por nós, daí era uma festa de “arruma fulana pra mim” ou “pergunta pra ciclana o que ela acha de mim”. Tudo isso pensando em crescer logo pra essa fase ruim passar.
Quando adolescentes, pensamos que somos as pessoas mais felizes do mundo, jovens bonitos (livre dos problemas da pré-adolescência), já temos alguma experiência da fase do “fulana quer ficar com você”, podemos sair de casa e voltar um pouco mais tarde (pra mim da na mesma, sempre meia-noite ¬¬’), fazemos esquemas de dormir na casa das amigas pra ir a lugares onde nossos pais não nos deixam ir, sabemos como usar maquiagem sem parecer drag queens, usamos salto alto sem tropeçar (não é meu caso, sempre tropeço ¬¬’), os meninos mais velhos se interessam pela gente, deixando nossos amigos de infância em desvantagem, e os forçando a caçar pré-adolescentes, o que, dependendo do grupo de amigos e da intimidade, levam à zoação e a tiração de sarro do cara depois (isso esteve bem presente no meu ensino médio), fingimos que somos de maior pra poder beber, matamos aula no colégio pra fazer isso (hihihi), todo mundo é amigo, ninguém fica tentando ser o que não é (vamos combinar que isso é minoria, mas to contando mais dos meus amigos), todo mundo brinca com todo mundo, é uma festa só. Tudo isso sempre pensando em ter maior idade logo, prapoder beber, dirigir, sair a vontade.
Chega a maior idade, ô expectativa que a gente cria por causa dos 18 aninhos… Mal sabemos que não muda porra nenhuma, os pais continuam a encher o saco, pois afinal você ainda é sustentado por eles, você entra na faculdade, onde não tem mais aqueles amigos que você podia contar tudo, brincar e se sentir a vontade, na faculdade não, você tem responsabilidades grandes agora, tem AC’s pra completar, mil trabalhos, provas, não pode matar aula se não você vai ser um péssimo profissional (algumas a gente ainda mata pois primeiro ano tem umas coisas muito irrelevantes, enfim), você vê muito pouco seus amigos que também estão ocupadérrimos com a faculdade deles e por aí vai. É nesse momento, exatamente nesse momento que você começa a lembrar de como sua infância foi divertida, mas que você deveria ter brincado mais com os amiguinhos, que a pré-adolescência não foi ruim, pelo contrário, rende boas risadas hoje e que deveria ter tentado superar essas crisezinhas com truques de beleza das mulheres da família, que a adolescência, que já tá no finalzinho, foi com certeza a melhor parte, mas que você saiu pouco, zuou pouco com amigos, deveria ter saído mais, conhecido mais gente, ter tido menos medo das coisas, tudo isso porque nunca estamos satisfeitos com o presente, sempre pensamos que no futuro será melhor, e esquecemos de viver o agora.
Não dá mais pra voltar nesses períodos e fazer tudo o que tinha vontade mas não fez, seria a melhor coisa no mundo se desse, mas o tempo é implacável, ele passa, e passa MUITO rápido, infelizmente. Quando acabar a faculdade, COM CERTEZA pensarei onde estou agora e direi: “puxa vida, eu nem aproveitei direito as coisas da faculdade, agora tenho que trabalhar e nem tenho mais tempo.” Eu não quero pensar mais assim, ando pensando muito nisso, e sinto falta da época do colégio que só era alegria, mas a gente vivia esperando o amanhã sem ver o dia passar, e os malditos adultos dizendo: “quando você for adulto, vai querer muito voltar a ser criança”, agora que estou chegando lá vejo como isso faz sentido, mas toda criança sempre pensa e continuará pensando: “ah que nada, eu não posso fazer nada agora, adulto terei toda a liberdade do mundo”. Os pais tem uma boa parcela de culpa nisso, pois no desespero de proteger os filhos de tudo não os deixam ter sua própria vida, ter suas próprias experiências e aprender com elas, pois nada se aprende assistindo televisão ou jogando videogame, os pais tem que incentivar os filhos a aproveitarem a juventude de maneira saudável, pra que eles possam chegar na minha idade e dizer: “eu fiz tudo o que eu tinha que fazer quando era criança, foi muito bom, e agora farei tudo como um adulto”.
Infelizmente eu não penso assim, pois não fiz tudo, nem metade do que eu podia e queria fazer, e agora tenho vontade de fazer coisas de adolescentes, enquando pessoas da minha idade querem sussegar pois já tiveram seus tempos de agito, e eu as invejo, muito. Isso é uma coisa que me deixa aflita, me dá um aperto, um nó na garganta, pois me faz duvidar de coisas tão certas no presente em função de coisas incertas do passado. Com essas reflexões nostálgicas, eu sei o que fazer, sei que não devo ficar pensando no que passou, mas sim no que está passando, porém algo incompleto lá atrás não me deixa fazer isso direito e me controlo o máximopra não fazer nenhuma cagada agora em função de recuperar o tempo perdido.
Os estragos de uma vida não aproveitada podem ser desastrosos, por isso eu digo, aproveite cada segundo do seu dia, dando um passo de cada vez, a vida vai passar, e a última coisa que você quer, é ter pressa, pois quando ela acabar, não terá outra fresquinha pronta para ser moldada te esperando.
Música recomendada:
Os Titãs – Epitáfio.